AILTON ELISIÁRIO
Nulla dies sine linea
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PESTES
 
            Em tempo de pandemia, como este que estamos vivendo, é providencial que visitemos a literatura mundial sobre o tema, não somente para que recordemos os tipos já enfrentados, mas, principalmente, para vermos as ações de combate que foram adotadas em cada caso. Com este propósito revisitei Giovanni Boccaccio (1313 – 1375), escritor italiano do Século XIV, que se consagrou com sua obra Decamerão.
            Nesse livro, Boccaccio narra a história de um grupo de pessoas, mais precisamente 7 mulheres e 3 homens, que fugindo da peste negra que assolava Florença, resolvem se isolar numa casa na zona rural, bastante afastada da cidade, para ocuparem o tempo contando cada um deles dez histórias por dia ao longo de dez dias. O título Decamerão, originário do grego “deka” (dez) e “hemera” (dia), significa precisamente dez dias.  
            As narrativas abordam variados assuntos que, embora sendo histórias de amor, envolvem dramas, tragédias, emoções, moral, esperteza, humor, erotismo, enfim, histórias da própria vida. São 100 histórias que retratam a realidade humana e exaltam a beleza e o amor terrenos. Sua obra o fez grande realista da literatura universal, numa época em que os princípios morais e as tradições literárias defendiam o valor da vida supraterrena e do amor espiritual.
            Boccaccio inicia descrevendo as cenas da peste bubônica ou peste negra, que vitimou cerca de um terço da população europeia, estendendo-se aos demais continentes. Na narrativa vê-se a preocupação das pessoas em se isolarem pessoalmente umas das outras, demonstrada mesmo com o isolamento do grupo numa propriedade rural e que teria de enfrentar o estresse contando histórias para vencer os efeitos negativos do confinamento.
            Escreveu Boccaccio: “Esta peste foi de extrema violência; pois ela atirava-se contra os sãos, a partir dos doentes, sempre que doentes e sãos estivessem juntos. (...) Não apenas o conversar e o cuidar de enfermos contagiavam os sãos com esta doença, por causa da morte comum, porém mesmo o ato de mexer nas roupas, ou em qualquer outra coisa que tivesse sido tocada, ou utilizada por aqueles enfermos, parecia transferir, ao que bulisse, a doença referida”.
            “Pessoas havia que julgavam que o viver com moderação e o evitar qualquer superfluidade muito ajudavam para se resistir ao mal. Formando o seu grupo exclusivista, tais pessoas viviam longe das demais”. (...) Outras pessoas, levadas a uma opinião diversa desta, declaravam que, para tão imenso mal, eram remédios eficazes o beber abundantemente, o gozar com intensidade, o ir cantando de uma parte a outra, o divertir-se de todas as maneiras, o satisfazer o apetite fosse de que coisa fosse, e o rir e troçar do que acontecesse, ou pudesse suceder. (...) Inúmeras outras preferiam o caminho do meio, entre os dois acima assinalados. Não evitavam os bons acepipes, como os primeiros, nem, igual aos segundos, entregavam-se à bebida e a outras formas de dissolução”.
            O quadro da pandemia atual parece muito com o quadro medieval narrado por Boccaccio, exigindo-se, pois, em decorrência, bom senso e acatamento das orientações do Ministério da Saúde. O Covid-19 pode infectar até 70% de toda a população mundial, por isso, pode ser considerado como uma das maiores pandemias da história universal. A gripe russa matou mais de 1 milhão de pessoas, a gripe asiática mais de 2 milhões, a gripe espanhola vitimou cerca de 40 milhões, a cólera ainda mata 120 mil pessoas por ano, a gripe suína em torno de 17 mil pessoas, o corona vírus já vem matando mais de 80 mil pessoas no mundo.
            As pesquisas respondem satisfatoriamente às medidas ministeriais adotadas. Portanto, a preservação da vida continua sendo o foco principal das ações. Se Boccaccio tivesse de escrever um novo Decamerão, decerto mesmo preocupado o faria com muito menos inquietude em relação ao Brasil, cuja população tem correspondido às preocupações e angústias do Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o qual diante das divergências do próprio governo, acalma a população com a expressão “médico não abandona paciente”, que repercute como alento de que a peste será debelada.  
Ailton Elisiario
Enviado por Ailton Elisiario em 14/04/2020
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